Após concluir Medicina na Bolívia aos 56 anos, acreano é aprovado no Revalida e aguarda registro no CRM

Moisés Amorim de Sousa deixou a escola na 7ª série, foi camelô, taxista e caminhoneiro antes de vender tudo para custear os estudos; “enquanto você está vivo, você pode estudar”, diz
O acreano Moisés Amorim de Sousa, de 56 anos, concluiu o curso de Medicina, foi aprovado no Revalida e aguarda apenas a finalização da documentação para obter o registro no Conselho Regional de Medicina (CRM). Ele contou a própria trajetória em entrevista.
Moisés cresceu na zona rural, na região entre o Quinari e Boca do Acre, e é o primeiro de cinco filhos, com três irmãs e um irmão. A mãe era comerciante e o pai sempre trabalhou com caminhão. A família depois se mudou para a cidade. Ele relatou que começou a estudar cedo, mas com atraso. “Quando comecei a ler, tinha uns 9 anos”, disse. Também afirmou que tinha dificuldade de concentração.
Aos 17 anos, cursava a 7ª série e decidiu abandonar a escola. “Quando tive 17 anos, estava na 7ª série e achei que já estava velho demais. Eu parei de vez”, afirmou.
Nas décadas seguintes, Moisés exerceu várias atividades. Foi camelô, comerciante, taxista, trabalhou em garimpo, teve uma loja de motos e se tornou caminhoneiro depois de aprender o ofício no caminhão do pai. Mesmo assim, segundo ele, havia um sentimento constante de falta. “Nesse intervalo de 2007 até 2017, eu sempre senti que algo faltava na minha vida. Eu sempre quis voltar a estudar”, declarou. Uma irmã apresentou a ele a Educação de Jovens e Adultos (EJA), e ele concluiu o ensino fundamental e o ensino médio na modalidade, sem deixar de trabalhar.

A ideia de cursar uma faculdade surgiu aos poucos. Em 2010, Moisés levou uma filha a Santa Cruz, na Bolívia, e gostou do que viu. Em 2015, a formatura dessa filha reforçou o interesse dele por um curso superior. Ele também mencionou ter acompanhado a mãe em hospitais de Goiânia. O impulso final veio com o nascimento de Aimee, a filha mais nova, em 2013. “Ela foi a culpada de eu ter me formado, porque foi ela que me incentivou”, disse. Ele chamou as duas irmãs para estudar na fronteira com ele.
Aos 48 anos, vendeu o caminhão, um terreno e a herança que havia recebido para custear os estudos. “Vendi tudo o que eu tinha construído. Deus abriu as portas”, afirmou.
Na Bolívia, enfrentou a barreira do idioma e a discriminação. Segundo ele, a maior parte da turma era formada por jovens. Quanto ao idioma, relatou que cada professor tinha um sotaque e que levou cerca de dois meses para se adaptar. “Eles são muito tolerantes com a gente”, disse sobre os bolivianos. Sobre o preconceito, contou que ajudou os colegas e que isso mudou a relação com a turma. “Eu fui muito discriminado. Tive que me colocar ajudando os colegas. Eu conquistei a turma depois”, declarou.
Texto Marcus José

