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Taekwondo no Acre, veja a evolução do esporte marcada pela força feminina que desafiou limites

Pioneiras na representatividade feminina dentro de uma arte marcial coreana, marcada por chutes rápidos, altos e potentes, aliados à disciplina, ao respeito e ao desenvolvimento físico e mental, Susie de Matos, Aldeniza Fernandes e Carminda Pinheiro escreveram seus nomes na história do taekwondo no Acre. Agora, esse legado ganha registro oficial no livro ” A história do taekwondo no Acre”, do escritor acreano Enilson Amorim. 

De forma direta, taekwondo significa “o caminho dos pés e das mãos”, e foi justamente nesse caminho que muitas mulheres imprimiram força, coragem e representatividade, contribuindo para que a modalidade crescesse e se tornasse transformadora no estado.

Esporte olímpico desde 2000, com regras específicas, equipamentos de proteção e pontuação baseada em chutes e golpes válidos, o taekwondo exigiu que diversas mulheres provassem, ao longo dos anos, que se trata de uma prática verdadeiramente democrática, aberta a todos que desejam evoluir, competir e superar limites.

Discípula do mestre Juca, Carminda lembra que começou a praticar taekwondo em 1989, após assistir a apresentações do professor na academia que frequentava. Ela não praticava nenhum esporte, mas a curiosidade, compartilhada com alguns amigos, a levou a se dedicar à arte marcial.

Hoje, a engenheira agrônoma reconhece que, ao simplesmente seguir seu impulso naquele momento, começava a escrever uma história que se tornaria não apenas de superação, mas de inspiração para tantas outras mulheres.

“Por se tratar de um esporte de combate, com treinos intensos que exigem resistência, elasticidade e preparo físico, o taekwondo demanda muita dedicação, concentração, disciplina e coragem. No início, não havia participação feminina, o que tornou minha trajetória ainda mais desafiadora”, relembra.

A mulher que mudou o jogo

O escritor Enilson Amorim, autor do livro A história do taekwondo no Acre, também destaca o impacto de Carminda no cenário esportivo acreano.

“Quando escrevi sobre a Carminda, foi porque meu livro mostra um pouco da mulher atleta dos anos 90 e os desafios que ela teve que superar. Para praticar a modalidade, ela precisava fazer combates pesados com os homens. Eu mesmo, por exemplo, tinha que suar intensamente meu dobok para não deixar ela me bater. Além da Carminda, havia outras mulheres brilhantes no taekwondo dos anos 90, como Susie Matos, primeira faixa preta graduada pelo mestre Juca no Acre — e Roberta Picanso, todas com um potencial incrível”, relembra Amorim.

A história continuou sendo escrita pelos passos ágeis de outras mulheres. Em 2015, o autor recorda o feito de Liriel Dara. “Aluna do mestre Leddinho, ao entrar para a Seleção Brasileira de Taekwondo, ela já conquistou medalha no Grand Slam e, em seguida, foi convocada para um campeonato mundial na Coreia do Sul, realizado na cidade de Muju, algo que nenhum outro atleta acreano havia alcançado. São essas grandes personagens que ficaram anônimas por anos e agora se tornam visíveis no meu livro”, enfatiza.

Apesar dos desafios, Carminda destaca que o ambiente sempre foi marcado pelo respeito, um dos pilares do taekwondo, ao lado da disciplina e da hierarquia.

“Como me identifiquei muito com o esporte, mantive minha dedicação focada nos exames de faixa, evoluindo passo a passo até alcançar a faixa preta 1º DAN, uma conquista que representa não apenas habilidade técnica, mas também toda a minha perseverança ao longo dessa jornada”, conta.

Ensinamentos que permanecem

Durante 10 anos, Carminda treinou e se dedicou intensamente ao taekwondo, e nem tudo foi fácil. Os treinos exigiam muito, e a rotina era desafiadora. “Conciliar estudos, trabalho e família exigiu ainda mais esforço e determinação para manter o foco no esporte. O taekwondo se tornou um caminho de crescimento pessoal contínuo, em que cada faixa conquistada representou não apenas evolução técnica, mas também amadurecimento como pessoa.”

Atualmente morando em Brasília, ela não pratica mais a modalidade, mas reconhece o impacto transformador que o taekwondo teve em sua vida, e na história do esporte no Acre.

“Através dos treinos, aprendi a controlar não apenas o corpo, mas também a mente, desenvolvendo paciência, foco e autoconfiança. O taekwondo despertou em mim um senso maior de atenção e consciência do ambiente ao meu redor, quase como um instinto de segurança. Mesmo fora da prática, os ensinamentos permanecem comigo, influenciando a forma como penso, ajo e encaro os desafios do dia a dia.”

No fim, Carminda reforça que a prática esportiva é democrática e acessível a todos. “O taekwondo é para todos que têm vontade de aprender, crescer e se superar. A prática vai muito além da luta, ela fortalece a mente, o corpo e a autoconfiança. Cada treino é uma oportunidade de evolução, e cada dificuldade enfrentada se transforma em aprendizado. Eu mesma tive o privilégio de inspirar mulheres que queriam praticar taekwondo, mas tinham receio de serem discriminadas. Muitas se espelharam na minha persistência até a conquista da faixa preta, mostrando que é possível, sim, chegar aonde se deseja”, destaca.

Quebrando tabus

Susie de Matos, citada também por Carminda, foi a primeira mulher a se graduar faixa preta sob a tutoria do mestre Juca. Ela iniciou no taekwondo entre 1992 e 1993 e revela que ingressar em uma prática, na época majoritariamente masculina, representou uma verdadeira quebra de tabu.

“Não era bem visto pela sociedade. Porém, com as inúmeras apresentações do mestre Juca, que na época era 3º Dan de Taekwondo, esse mito de que artes marciais não eram para mulheres foi sendo quebrado. Hoje, na minha opinião, é de essencial importância para as mulheres, e está sendo muito bem representada por aquelas que, aqui e no mundo, conseguem difundir o taekwondo.”

Ao se graduar faixa preta em 1997, Susie já percebia o crescimento da participação feminina no esporte. Para ela, ao olhar para trás, esse foi o maior título que poderia ter recebido.

“Me engrandeceu e me tornou mais forte. Nossa responsabilidade como praticantes dessa arte marcial de tradição milenar sempre foi mostrar aos demais lealdade, respeito e construir, assim, um mundo mais pacífico”, completa.

Caminho compartilhado

Em 2000, após participar de diversos campeonatos, seletivas e ministrar aulas de defesa pessoal, Susie precisou se afastar das atividades para focar na faculdade, período em que se formou em Educação Física.

“Passei em um concurso e fui morar em outro município, quando fiquei afastada por longos 27 anos, mas sempre com o coração saudoso pelas artes marciais. Hoje retornei às atividades, primeiro como mãe, depois por convite de um amigo e hoje sócio, ministrando aulas para crianças e adultos na Tiger Dojang. Voltar depois de tanto tempo não é fácil, mas tem sido muito prazeroso”, conta.

Agora, a filha segue os movimentos precisos da mãe na arte que a moldou como pessoa e profissional. Além da filosofia que equilibra corpo e mente, Susie reforça que o taekwondo também é uma ferramenta de proteção para as mulheres.

“É para se prevenir de situações constrangedoras e abusivas. No Acre, vejo que o taekwondo está muito bem representado por mestres e professoras que desempenham esse papel com maestria, e o mesmo acontece mundo afora. A força feminina se destaca nos rankings nacionais e internacionais”, pontua.

Susie lembra que, antes de praticar taekwondo, não compreendia plenamente os valores e o equilíbrio entre corpo e mente. “A Susie de hoje desenvolveu habilidades, superação, disciplina, senso de responsabilidade, respeito e autoconhecimento. E a mensagem que deixo é: não importa qual arte marcial você escolha, simplesmente faça.”

Raiz que floresce

Dados da Federação de Taekwondo do Estado do Acre (Feteac) apontam que, atualmente, mil mulheres estão cadastradas como atletas da modalidade no estado. Aldeniza dos Santos Fernandes tinha apenas 12 anos quando encontrou, no pátio simples de um projeto social do bairro, o caminho que mudaria sua vida. O professor Beto Nunes conduzia os treinos, mas era o taekwondo, com sua disciplina silenciosa e seus valores éticos, que começava a moldar a menina que ainda não sabia a força que carregava.

“Encontrei no taekwondo uma modalidade que alia disciplina, técnica e valores éticos. Um instrumento de avaliação contínua”, diz ela, hoje aos 37 anos, com a maturidade de quem reconhece o impacto dessa escolha precoce.

Aldeniza agora integra as páginas do livro que registra a história do taekwondo no Acre. Para ela, não é apenas uma lembrança impressa, é um marco. “Fazer parte da história do livro foi importante e emocionante, porque ficará registrado o legado e o trabalho feito em prol da minha modalidade.”

Em um ambiente majoritariamente masculino, Aldeniza descobriu cedo que sua presença era, por si só, um ato de resistência. “Como mulher, pude mostrar força, determinação e engajamento. Contribuí para a democratização do esporte, fortalecendo a diversidade e incentivando outras meninas. Sempre tive muito respeito dos colegas e sempre me senti confiante do meu crescimento. Busquei muito isso.”

O taekwondo, para ela, nunca foi apenas técnica. Foi formação. Foi caráter. Na própria trajetória, ela viu isso acontecer de forma concreta. “O taekwondo contribuiu muito para o meu desenvolvimento pessoal, proporcionando mais foco, determinação, superação e valores. Acredito que o grande diferencial da arte marcial na formação de crianças e jovens está no seu caráter educativo e formador de valores. O taekwondo contribui para o desenvolvimento da disciplina, respeito e responsabilidade”, enfatiza ao destacar que hoje passa esse legado para outras gerações.

Ela reforça que a escolha da modalidade deve ser consciente e alinhada ao que cada pessoa busca. “Escolher a modalidade adequada é levar em conta seus objetivos pessoais, conhecer o ambiente, o instrutor, a metodologia e identificar-se com a filosofia.”

O esporte como transformação

Para Aldeniza, o taekwondo foi mais que prática esportiva, foi ferramenta de vida. Hoje, ao ensinar crianças, ela tenta devolver ao mundo aquilo que recebeu do esporte. “Eu considero o esporte um transformador social. Passei a lidar melhor com as adversidades, com mais postura e mais disciplina. Procuro transmitir valores que vão muito além da prática esportiva. Ensino sobre respeito ao próximo, caráter e confiança em si mesmas.”

E quando imagina o futuro da modalidade, ela visualiza expansão, reconhecimento e continuidade. “Imagino uma valorização maior do esporte, para os atletas, para quem conduz, para os instrutores e para os projetos sociais. Ampliar o alcance da modalidade, evoluir sem perder a essência.”

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