Filha de faxineira se torna médica em hospital onde a mãe limpa há 23 anos em Recife

Durante mais de duas décadas, os passos de Edilene Gomes pela Policlínica e Maternidade Professor Arnaldo Marques, no Ibura, zona sul do Recife, tiveram o ritmo compassado de quem empurra carrinhos de limpeza, desinfeta leitos e recolhe resíduos hospitalares. Foi desse trabalho diário como auxiliar de serviços gerais que saíram o teto e o sustento de suas duas filhas. Agora, o crachá funcional da mesma unidade traz outro sobrenome da família: Patrícia Lima, a menina que cresceu vendo a mãe sair de madrugada para varrer enfermarias, assinou o termo de posse como médica ginecologista e obstetra do município.
O encontro profissional entre mãe e filha no Sistema Único de Saúde resume um percurso que começou longe de qualquer facilidade. Antes de Edilene conseguir a vaga no hospital público, a família chegou a viver em uma ocupação no bairro de Tejipió e enfrentou períodos de escassez severa, com dias em que faltava comida na mesa. Sem ter completado a própria escolarização formal e criando as filhas sem a presença de um companheiro, Edilene fez da estabilidade do salário humilde o ponto de partida para cobrar das meninas dedicação integral aos cadernos.
A resposta veio em etapas. Primeiro com o ingresso no ensino superior gratuito por meio da política de cotas, depois com a formatura em Medicina e, finalmente, com a classificação no concurso público da Prefeitura do Recife. Ao escolher a lotação para exercer a especialidade voltada à saúde da mulher, Patrícia encontrou na maternidade do Ibura não apenas uma vaga de trabalho, mas o endereço exato que financiou sua formação.
Em uma profissão historicamente marcada por barreiras sociais e financeiras de acesso, a chegada de Patrícia ao corpo clínico da maternidade inverte uma lógica tradicional de ocupação dos espaços hospitalares. O jaleco branco e o uniforme de higienização agora dividem o mesmo plantão, apontando para o impacto concreto de políticas públicas que conectam a escola básica, a universidade pública e o serviço de saúde.
Para Edilene, o expediente segue entre corredores, salas de parto e quartos de recuperação. A diferença é que, agora, quando a porta de um consultório se abre para atender uma nova mãe da periferia recifense, quem atende do outro lado da mesa é a filha que ela sustentou com vassoura e pano de chão.

