Com participação de Gleici Damasceno, documentário ‘Santa de Feijó’ é gravado no Acre

Santa Maria da Liberdade, a ‘menina santa de ‘Feijó’, é tema de um documentário de longa-metragem produzido e gravado durante todo o mês de junho na cidade de mesmo nome, distante 350 km de Rio Branco. Com elenco que conta com a participação da atriz acreana Gleici Damasceno, o objetivo é relatar os milagres que teriam sido operados pela santa em dezenas de fiéis devotos.
A história da menina que morava no Seringal Liberdade, interior de Feijó, há mais de um século e passou a ser considerada santa popular décadas depois, ainda é rodeada de mistérios, já que há diversos relatos de que ela morreu de uma forma violenta. Uns contam que ela foi estuprada e morta. Em outras versões, o próprio irmão é apontado como algoz. No entanto, não há comprovações específicas sobre o que ocasionou este crime.
O g1 conversou com o historiador Marcus Vinícius Neves, diretor do documentário, e que estuda desde 2017 a devoção popular à santa. Em Feijó desde maio, quando o processo de pré-produção foi iniciado com Rodrigo Campos, que também dirige o longa, ele contou que é ‘impressionante’ a quantidade de devotos na cidade, além da mobilização para que Maria da Liberdade seja canonizada e se torne santa pela Igreja Católica.
O professor comentou também que no documentário, que deve ser lançado no próximo ano, é usado o dispositivo ficcional para ajudar a contar a história que é rodeada de mistérios, já que há muitas versões acerca da morte dela. Gleici Damasceno, inclusive, retrata a santa no documentário, onde tem a missão de contar as várias maneiras com as quais as mulheres acreanas, as ‘Marias do Acre’, são vilipendiadas e mortas.
“É uma oportunidade de mostrar que essa violência contra mulher, de gênero, é muito arraigado na cultura, na sociedade desde a época dos seringais, onde as mulheres eram usadas como mercadorias em troca de dívida de seringueiro, não era reconhecido na dignidade humana”, frisou.
Ele fez menção à forma violenta com a qual Maria da Liberdade teria sido morta, em comparação com casos de feminicídio ocorridos no Acre. Somente em 2023, por exemplo, o estado teve o segundo maior índice de feminicídios do país, com taxa de 2,4 mortes por 100 mil habitantes, segundo um relatório publicado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).

Milagres
O historiador teve conhecimento da história após conhecer uma pessoa chamada Maria da Liberdade em homenagem à santa. A mãe da jovem estava em trabalho de parto em um barco no meio do rio e fez uma promessa para ter um bom parto.
“Há muitas mulheres em trabalho de parto que foram salvas. Então, existem várias Marias da Liberdade ao longo do rio. Em outro caso, um homem disse que ficou doente, parou de mamar e a mãe já tinha até comprado o tecido para fazer uma mortalha. Quando anoiteceu, a mãe dele prometeu à Maria que se o filho sobrevivesse usaria o pano para cobrir o altar na capela. Quando deu 3h da manhã ele começou a mamar e chegou aos 67 anos”, relatou.


