Acre perde aos 100 anos Zé Félix, um dos últimos soldados da borracha “deixa uma história de luta, trabalho”

O Rio Macauã perdeu um de seus antigos conhecedores. José Félix Pinheiro Monteiro, o Zé Félix, morreu nesta sexta-feira (16), aos 100 anos, levando consigo lembranças de um Acre construído também pelas mãos de homens que fizeram da floresta seu lugar de trabalho, moradia e criação dos filhos.

Um dos últimos soldados da borracha do estado, Zé Félix viveu boa parte de sua vida no seringal Repouso, no Rio Macauã. Ali, trabalhou no corte da seringa e em outros serviços, numa trajetória de muitos anos de esforço para garantir o sustento da família.

Entre as estradas de seringa e as águas do Macauã, construiu sua história ao lado da esposa, dona Odete. O seringal foi o cenário de uma parte importante dessa caminhada, até que o encerramento de suas atividades levou a família a buscar outro destino.

Zé Félix mudou-se para a cidade com a mulher e os 12 filhos. Começava uma nova etapa, levando na bagagem a experiência de quem havia passado tantos anos vivendo do trabalho na floresta. Dos 12 filhos do casal, sete permanecem vivos.

Um deles, Francisco Ceci, contou ao ContilNet que a família cresceu tanto que não soube precisar quantos netos, bisnetos e tataranetos o pai deixou. Sua estimativa é de cerca de 30 netos e 15 bisnetos, além dos tataranetos, cujo número não informou.

É nessa família, espalhada por diferentes gerações, que permanece uma parte fundamental do legado de Zé Félix. Uma história que começou muito antes de muitos de seus descendentes nascerem e que agora seguirá pelas lembranças daqueles que conviveram com ele.

Conhecido em todo o Rio Macauã, Zé Félix pertenceu a uma geração que conheceu de perto a dureza da vida nos seringais. Sua despedida representa também a perda de uma memória viva: alguém que testemunhou transformações profundas e guardava experiências de um tempo que se torna cada vez mais distante.

Aos 100 anos, José Félix Pinheiro Monteiro deixa uma história de luta, trabalho e vínculos familiares. Leva consigo lembranças e segredos dos rios e da floresta onde nasceu e viveu por tantos anos. Mas deixa, entre os seus, um nome que continuará atravessando o tempo: Zé Félix, do Macauã.

Texto Wania Pinheiro