No Acre, motorista de aplicativo transforma carro em vitrine de livros “Não é só dinheiro que conta”

Depois de trabalhar por mais de três décadas com vendas de livros em escolas e eventos, o gaúcho Reni José Schmitt, de 57 anos, precisou reinventar a própria rotina após passar por uma cirurgia para retirada de varizes, em Rio Branco. Com a limitação para conseguir carregar o peso das caixas de livros, ele decidiu começar a atuar como motorista de aplicativo.
Há pouco mais de um mês, no entanto, o carro se transformou em uma espécie de vitrine de incentivo à leitura. É que além de transportar passageiros, Reni também leva livros infantis para vender e ajudar a despertar o interesse pela leitura, especialmente entre as crianças.
Natural da cidade de Aratiba, no Rio Grande do Sul, o motorista mora no Acre há 18 anos. Formado em Gestão de Negócios Imobiliários e técnico em Agropecuária, ele chegou ao Acre com o objetivo de estudar contextos religiosos específicos e construiu uma trajetória profissional voltada à venda de livros.
Segundo Reni, a paixão pela leitura começou ainda na infância, quando o pai, sem condições de comprar obras, presenteou o filho apenas com um mapa do Brasil.
“Quando eu era menino, meus pais eram agricultores, com baixa renda, com muitas dificuldades econômicas. Eu sempre pedia livro ao meu pai, só que ele não tinha condição para comprar. Numa dessas, ele comprou um mapa do Brasil e me deu. Aí nasceu essa paixão”, relembrou.
O interesse pela leitura o acompanha desde sempre. De acordo com ele, quando ainda era estudante, chegou a ler mais de mil livros em um único ano. Depois de atuar como técnico agropecuário, passou a vender livros profissionalmente e nunca mais deixou a atividade.
“Estou há 35 anos oferecendo livros. Essa paixão por atender as pessoas e sugerir melhorias intelectuais me faz trabalhar todos os dias. […] No momento da venda do livro me dá uma alegria imensa em saber que é mais uma criança tendo a oportunidade de receber um pouquinho da transformação que o livro consegue fazer”, contou.
Mudança de rotina e adaptação
Em junho de 2025, Reni passou por uma safenectomia, cirurgia para retirada de varizes. Acostumado a montar exposições em escolas, principalmente nas comunidades mais periféricas, Reni passou a sentir dificuldades para carregar o peso dos livros.
A partir disso, o gaúcho decidiu investir em um carro e começar a trabalhar como motorista de aplicativo. Antes de começar a levar os livros dentro do veículo, ele passou cerca de 20 dias conhecendo a nova profissão atrelada ao amor pelos livros — tudo com segurança e tranquilidade.
Na nova profissão, ele organiza a rotina entre as corridas. Reni sai de casa às 5h, trabalha até as 9h, retorna entre 10h45 e 14h, descansa durante a tarde e volta às ruas das 16h às 22h.

Além de complementar a renda, os livros passaram a transformar o ambiente dentro do carro, com preços que variam entre R$ 10 e R$ 150. Reni conta ainda que costuma oferecer exemplares principalmente quando transporta famílias com crianças.
“O primeiro objetivo é principalmente quando entram pais e mães com crianças, para tornar a viagem mais suave, alegre, tranquila. A criança entra agitada, então eu dou um livrinho para ela olhar junto com a mãe. Ela se acalma, se tranquiliza e chega ao destino contente”, descreveu.
Segundo ele, alguns dias a venda dos livros supera até mesmo o faturamento obtido com as corridas. Alguns passageiros também fazem encomendas e o convidam para apresentar o acervo em casa.
“Tem dias que eu apuro mais renda com a venda dos livros do que com o próprio aplicativo. Isso mostra que a comunidade acreana realmente quer investir nos filhos […] Não é só dinheiro que conta. Ver uma criança feliz, interessada por um livro, para mim já é uma recompensa enorme”, disse.

Paixão que resiste
Reni compartilha também que vendeu livros de diferentes áreas como enciclopédias, mas que atualmente trabalha exclusivamente com títulos infantis. Todo o material faz parte de um estoque adquirido ao longo dos anos.
De acordo com o motorista, os passageiros costumam se surpreender ao ver os livros expostos no carro.
“Todos os dias são altas gargalhadas. A pessoa entra, olha e diz: ‘Nossa, que legal’. Ganha o passageiro e eu também. As viagens ficam mais curtas, mais suaves“, acrescentou.
Apesar da maioria das experiências serem positivas, ele lembra de algumas situações que o emocionaram, como crianças que queriam levar um livro, mas que os pais não tinham condições de comprar.
“Teve algumas crianças que agarravam o livro e não queriam mais soltar. Às vezes eu vendo praticamente a preço de custo, porque só de ver aquela criança interessada nessa ferramenta já é um pagamento. Não é só dinheiro que conta”, disse.
Para Reni, o incentivo à leitura nos primeiros anos de vida faz diferença no desenvolvimento infantil. Ele acredita que momentos simples, como a leitura durante uma corrida de aplicativo, podem criar oportunidades de aprendizado.
“Às vezes a criança entra agitada. A mãe começa a ler para ela e, quando chega ao destino, ela está tranquila. É gratificante ver o resultado que conseguimos proporcionar”, afirmou.
Depois de enfrentar a cirurgia e mudar completamente a forma de trabalhar, o gaúcho diz que o principal aprendizado desse recomeço é a resiliência.
“Eu acredito que a palavra é humildade e resiliência. A capacidade de reagir às adversidades. Todos os dias precisamos focar no momento presente, aprender, ensinar e compartilhar aquilo que temos de melhor”, finalizou.
Pâmela Celina

