Adolescente que matou brasileira na Bolívia mentiu sobre idade ‘foi em busca do sonho dela’

Em dezembro de 2024, ele foi denunciado por ajudar seu irmão a espancar outro jovem universitário. O Ministério Público está ciente do assunto e os familiares das vítimas agendaram uma passeata em Santa Cruz para esta terça-feira.

Um estudante universitário é outra vítima do adolescente que assassinou uma brasileira no dia 4 deste mês, que estava a poucos dias de se formar em medicina.

A família da segunda vítima foi até a Promotoria de Justiça do Departamento de Santa Cruz na segunda-feira para exigir a ampliação das investigações sobre o jovem de 16 anos, que atualmente está preso preventivamente no Centro Vida Nova de Santa Cruz (Cenvicruz). O menor foi internado por ordem judicial após sua participação no crime ter sido comprovada. Para a família do novo denunciante, o jovem representa um risco latente para a sociedade devido ao seu histórico de violência.



Segundo a investigação conduzida pelo Ministério Público e pela Força Especial de Combate à Violência (Felcv), o menor conheceu a brasileira no final de março. O encontro ocorreu na Praça 24 de Setembro, quando a vítima saía da catedral. Naquela época, eles trocaram números de telefone e, segundo as autoridades, iniciaram um breve relacionamento. Dias depois, o corpo sem vida da mulher foi encontrado em seu apartamento, localizado em um condomínio no bairro Valle Azul, na zona norte de Santa Cruz.
A vítima, de 37 anos, era mãe de duas crianças — uma de 17 e outra de 9 anos — e havia retornado recentemente do Brasil para concluir o curso de medicina em uma universidade particular. O laudo pericial determinou que a causa da morte foi asfixia mecânica por sufocamento. Após reunir provas e depoimentos, a Felcv identificou a adolescente como autora do feminicídio. O Ministério Público o acusou formalmente, mas como ele era menor de idade, o caso foi encaminhado ao juizado penal juvenil. Um juiz da Infância e da Adolescência determinou que ela fique presa preventivamente por quatro meses em um centro especializado.

Familiares da cidadã brasileira chegaram do seu país de origem para exigir justiça e expressaram sua profunda consternação. Eles alegaram que o adolescente enganou a vítima, se passando por um homem de 20 anos. A mulher, confiante, acreditou em sua história sem imaginar o desfecho trágico.
Laços familiares perigosos
Os familiares de outro jovem universitário também compareceram ao Ministério Público para relatar um segundo caso. Foi revelado que a universitária, mãe de uma menina, mantém um relacionamento com o irmão mais velho do adolescente acusado. Essa relação, eles disseram, foi marcada por atos de violência.

Em dezembro de 2024, a jovem relatou ter sido agredida pelo companheiro, irmão da menor, que também fugiu do país logo após o ocorrido. Na mesma ocasião, ela foi espancada pelo garoto de 16 anos e sua mãe, o que piorou a situação.

O irmão implicado está atualmente nos Estados Unidos, onde buscou refúgio para evitar ser processado por vários golpes relacionados a esquemas de pirâmide. O Ministério Público anunciou que não descarta acionar mecanismos internacionais para gerir sua extradição.



Nesta terça-feira, familiares, amigos e colegas de faculdade do médico brasileiro farão uma passeata pacífica em torno do Palácio da Justiça e do Ministério Público. Eles exigirão justiça para as vítimas, uma investigação completa do ambiente familiar dos acusados ​​e uma ação firme das autoridades para evitar que esses crimes fiquem impunes.

Em nota, Ministério das Relações Exteriores informou que em ciência do caso e está em contato com os familiares da brasileira, a quem presta assistência consular, e com as autoridades locais. (leia nota na íntegra abaixo). 

Nota do Ministério das Relações Exteriores:

O Ministério das Relações Exteriores, por meio do Consulado-Geral do Brasil em Santa Cruz de la Sierra, tem ciência do caso e está em contato com os familiares da brasileira, a quem presta assistência consular, e com as autoridades locais.

Informa-se que, em caso de falecimento de cidadão brasileiro no exterior, as Embaixadas e Consulados brasileiros podem prestar orientações gerais aos familiares, apoiar seus contatos com o governo local e cuidar da expedição de documentos, como o atestado consular de óbito, tão logo terminem os trâmites obrigatórios realizados pelas autoridades locais.

O traslado dos restos mortais de brasileiros falecidos no exterior é decisão da família e não pode ser custeado com recursos públicos, à luz do § 1º do artigo 257 do decreto 9.199/2017.

Segundo o relatório preliminar da polícia boliviana, o adolescente se apresentou na delegacia e alegou ter uma relação próxima da vítima. Em seu depoimento, ele disse que, durante relações sexuais com Jenife, ela sofreu um mal súbito e ele saiu do apartamento em seguida.

A versão é contestada pela família da vítima. A família afirma que Jenife havia conhecido o adolescente recentemente, e os dois não tinham proximidade.

Francimone Almeida, amiga de Jenife, lamenta a partida repentina da jovem. Ela relembra que a amiga viajou para a cidade para concluir mais uma etapa do sonho de ser médica. 

“Nós merecemos uma resposta da Bolívia. Nós queremos localizar as filmagens de onde ela morava, pois lá tinha câmera. Cadê o que foi encontrado no celular dela? Queremos essas respostas. Queremos mostrar para a sociedade que a Jenife foi em busca do sonho dela […] Ela tinha concluído o curso de medicina e ia retornar para a família dela e ela foi impedida de retornar”, lamentou Francimone.