O antropólogo e advogado Vitor Ido, que atua com direitos humanos na organização internacional South Centre, sediada na Suíça, lembra que direitos indígenas e quilombolas são reconhecidos pela Constituição brasileira, e defende que questões como o pasanaku só podem ser compreendidas pelas regras do país com uma “sensibilidade sociológica e antropológica”, além de dados efetivos para identificar quando se trata de autonomia privada individual e quando se trata de crime financeiro.
Uma das críticas recorrentes a Jaime também envolve o fato dele ser o atual presidente da Federação dos Residentes Bolivianos no Brasil (FRBB), que mantém relações com instituições públicas, privadas e ONGs no Brasil. Seu mandato vai até o final deste ano.
“Ele só se candidatou para que se tornasse a pessoa de confiança de que o pasanaku depende”, disse uma boliviana, sob condição de anonimato.
Jaime e Bladimir Chuquimia, de 45 e 43 anos, respectivamente, chegaram a São Paulo vindos de Luribay, no Departamento (Estado) de La Paz – a cidade fica a 167 km da capital boliviana, em 1999.
Filhos de produtores rurais, eles contam que desembarcam no terminal rodoviário do Tietê, na zona norte paulistana, apenas com o dinheiro que restara da viagem de ônibus e o endereço de uma prima que já morava na metrópole havia alguns anos.
Antes de deixarem a Bolívia, onde ajudavam os pais no campo, tinham acertado que trabalhariam como costureiros na oficina que ela possuía no Brás – bairro com grande concentração de bolivianos em São Paulo.
Por um salário de R$ 150 (salário mínimo no Brasil no começo dos anos 2000), Jaime e Bladimir afirmam terem trabalhado com ela por três anos. “Fui modelista, overloquista, fiz de tudo um pouco”, conta Jaime.
Para economizar, aceitaram morar com a prima durante o período, até que, com o dinheiro juntado, compraram quatro máquinas de costura em meados de 2002. Então, inauguraram o primeiro negócio próprio: uma oficina que fornecia peças prontas para uma loja de roupas no Bom Retiro, no centro de São Paulo.
A oficina foi o principal sustento dos dois irmãos até meados de 2015, quando Jaime convidou Bladimir para integrar uma sociedade com outros seis bolivianos em uma loja própria no Bom Retiro.
“A gente tinha os recursos na mão e achava que podia crescer um pouquinho mais tendo um lugar para vender nossas roupas”, explica Jaime.
À época, os sociólogos haviam notado uma mudança no funcionamento da cadeia de produção têxtil paulistana: bolivianos que já administravam suas próprias manufaturas estavam deixando de fornecer roupas para empresários sul-coreanos do Bom Retiro e tornando-se, eles mesmos, a ponta final do processo – costurando e vendendo blusas, camisas, calças e calçados na Feirinha da Madrugada, por exemplo, que movimenta a região depois da 1h.
Com isso, todo o processo de confecção e de comércio passou a ser gerenciado apenas por bolivianos.
Em paralelo ao progresso nos negócios, Jaime começou a trabalhar em rádios bolivianas da cidade como locutor: convidado por um amigo para conhecer a Meteoro, que transmitia via internet, ele foi contratado tempos depois para ocupar um horário na extinta Gigante, e até chegou a participar de um programa na tradicional rádio Trianon AM.
Hoje, ele é o apresentador principal do Revista Mega Fox, um folhetim radiofônico diário que ocupa três horas e meia da rádio online Mega Fox – parte do conglomerado da sua empresa.
Três meses antes de inaugurar a loja de roupas – que funciona até hoje -, Jaime também havia se interessado por empreendedorismo.
Fizera pequenos cursos oferecidos por coletivos e projetos para migrantes, mas resolveu investir em uma formação do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) com o objetivo pessoal de comprar um imóvel.
“Assim como eu, os bolivianos sonham em ter uma casa própria aqui, mas nunca conseguem um financiamento bancário por causa da comprovação de renda. Eu ainda tinha tentado entrar em um consórcio imobiliário, mas logo percebi que ia pagar por muito tempo e nunca ia chegar o dia de receber”, diz.
Hoje, três anos depois, apesar de a empresa girar em torno do modelo de financiamento, muitos bolivianos vão ao prédio pagar contas (água, luz etc.), enviar remessas de dinheiro para a Bolívia ou regularizar a documentação em território brasileiro – todos os serviços são oferecidos no mesmo lugar.
“É um Poupatempo da Bolívia”, brinca Márcio Guelfi.
“A comunidade boliviana aqui é numerosa, mas parece pequena, porque todo mundo se conhece. Então, sempre comentam sobre os carros que Jaime dirige, sobre a casa onde ele mora, o tanto de dinheiro que ele deve ter…”, afirma o costureiro Eduardo Vaca, que vive em São Paulo há três anos.
Jaime despista, mas afirma que, quando o condomínio estiver pronto, quer viver em uma das 600 casas. “Não quero luxo, só quero ser dono do meu imóvel no Brasil”, finaliza.