“Gilmar Mendes deveria trocar a toga pelo voto”, diz Dallagnol

O ex-procurador da Operação Lava Jato Deltan Dallagnol (Podemos) afirmou, em entrevista ao Uol, que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes deveria “ser coerente” e “trocar a toga pelo voto”.

Dallagnol é pré-candidato a deputado federal e diz que Mendes possui “numerosos comportamentos inadequados”.

O participante da Operação Lava Jato, que antes declarou não ter planos de se candidatar, agora afirma que “quer combater na arena política, e não mais no Judiciário”. No mês de novembro, Dallagnol pediu exoneração do Ministério Público Federal (MPF), após atuar por 18 anos no órgão, e se filiou ao Podemos, partido do ex-ministro da Justiça Sergio Moro.

No ano de 2016, ápice da Lava Jato, Dellagnol ficou marcado pela apresentação contra Lula que listava fatores que indicavam que o ex-presidente havia comandado o esquema de corrupção na Petrobras. “Recentemente, a cada semana, mais e mais casos de corrupção têm sido anulados pelo Supremo. São casos que seguiram as regras do jogo, mas o STF mudou as regras e aplicou para o passado. É como se um juiz mudasse as regras antes de apitar o final da partida para anular gols e mudar o resultado do jogo”, declara o ex-procurador. “Ficou cada vez mais evidente que, hoje, a arena para o combate à corrupção é a arena política, dentro do Congresso Nacional, e não mais na Justiça”.

Depois da divulgação de mensagens trocadas pelo aplicativo Telegram e obtidas pelo site The Intercept Brasil, Deltan Dellagnol deixou a Lava Jato no ano passado, mas continua destacando a importância e valor da operação e de Moro. As conversas divulgadas pelo site e por outros veículos de imprensa expuseram a relação próxima entre o então juiz e os procuradores da Lava Jato e trouxeram dúvidas sobre a imparcialidade de Moro no julgamento dos processos da operação — o que Dellagnol contesta.

“O STF se ateve a decisões como a condução coercitiva, a divulgação de áudios e a liberação de um termo de colaboração do Palocci. E nisso a decisão por maioria do STF errou feio, porque tais decisões simplesmente seguiram a lei e o padrão adotado pela Lava Jato em todos os outros casos”, disse o ex-procurador.

Ele se respondeu também as declarações de Mendes, principal crítico da Lava Jato no STF, que acusou Dellagnol e Moro de “militância política”.

Mendes repetiu as críticas à operação e declarou, também em entrevista ao UOL, que ambos integrarem o mesmo partido é “confissão de que já jogavam juntos”.

“É curioso que o ministro faça esse tipo de comentário, afinal, ele fala e dá entrevistas sobre temas em julgamento no STF, o que viola a lei da magistratura”, rebateu Deltan. “Poderia seguir recordando os numerosos comportamentos inadequados que são conhecidos dos brasileiros e, estes sim, sugerem uma atuação política do ministro”, disse o ex-procurador. “Se, como ele diz, o lugar para isso é a política, o ministro deve ser coerente e fazer o que defende: se filiar a um partido e trocar a toga pelo voto, para fazer política no campo certo, se candidatando a um cargo eletivo em 2022” completou.