Após 7 anos internada, menina recebe alta e conhece a própria casa pela primeira vez no Brasil

Pela primeira vez, Maria Clara dormiu em casa. Aos 7 anos, a menina deixou para trás o quarto de hospital que foi seu único lar desde o nascimento para iniciar uma rotina que, para a maioria das crianças, parece simples: sentar à mesa com a família e brincar com as irmãs.
“Hoje a família está completa”, comemorou Angélica Priscila de Oliveira, mãe de Maria Clara, foram anos em que ela conviveu com a ausência diária da filha dentro de casa. Enquanto criava outras três meninas, Maria permanecia do outro lado da cidade, internada no hospital.
A alta, concedida na terça-feira, 2, encerra um capítulo marcado por cirurgias, tratamentos intensivos e uma longa permanência no Hospital da Criança e Maternidade (HCM) de São José do Rio Preto, no interior de São Paulo. A menina nasceu prematura após uma gestação complicada. Gêmea de Manu, ela foi diagnosticada ainda bebê com uma grave malformação intestinal e precisou passar os primeiros anos de vida sob cuidados médicos constantes.
Segundo explicou a gastroenterologista pediátrica Mariana Napolitano, em nota divulgada pelo hospital, a criança nasceu com atresia intestinal, uma condição em que o intestino não se desenvolve adequadamente durante a gestação, comprometendo funções essenciais como a digestão e a absorção de nutrientes. Por causa da doença, ela precisou ser submetida a diversas cirurgias logo após o nascimento e dependeu por anos de nutrição parenteral, um tipo de alimentação administrada diretamente na corrente sanguínea.
Sete anos entre ônibus, hospital e saudade
A longa internação transformou a rotina da família em um desafio. Além de Maria Clara, Angélica é mãe de outras três meninas. Uma delas, inclusive, tem autismo e demanda cuidados especiais. Sem condições de permanecer integralmente no hospital, a mãe se dividia entre as filhas e as visitas à unidade hospitalar.
“Eu sempre dependi do ônibus da saúde para poder ir até lá. Então eu ia duas, três vezes por semana. Era muito difícil porque eu tinha as outras meninas aqui também”, conta.

Ao longo dos anos, a esperança de levar a filha para casa precisou conviver com sucessivos adiamentos. Segundo Angélica, diversas vezes a alta parecia próxima, mas intercorrências médicas faziam o processo recomeçar. “Teve horas que eu falava: ‘Meu Deus, me dá força porque eu não sei se vou dar conta’. Foram sete anos de muita luta”, lembra.
Apesar das dificuldades, ela destaca o acolhimento recebido da equipe do hospital durante todo o tratamento. “Os profissionais foram maravilhosos. Eles acolheram ela de braços abertos. Têm um amor e um carinho que não têm explicação.”
O vínculo criado foi tão forte que continua mesmo após a alta. Já em casa, Maria Clara fez chamadas de vídeo para profissionais que a acompanharam durante o tratamento, contou a mãe.

