
Em contraste com as tragédias que assolam os ianomâmis e os guarani kaiowá na luta pelo seu território, um oásis de floresta protegida e com fartura de alimentos desponta no Oeste do Acre, na fronteira com o Peru, onde está a aldeia Apiwtxa, na Terra Indígena Kampa do Rio Amônia. Uma área de floresta amazônica preservada, com rio limpo, animais bem alimentados e imensas árvores que atraem pássaros sagrados. Nela, os ashaninkas colhem o que plantaram há 30 anos, quando conseguiram a demarcação.
Orgulhosos por sua resistência às invasões de madeireiros e de seringueiros e pelo reflorestamento de 3 milhões de árvores nos 87,2 mil hectares de sua área, eles são um exemplo de segurança alimentar, autossuficiência e preservação da cultura, cosmologia e espiritualidade. A comunidade Apiwtxa ganhou em 2017 o Prêmio Equatorial das Nações Unidas, dado a iniciativas indígenas para a redução da pobreza e o desenvolvimento sustentável. Ainda preocupa a pressão de narcotraficantes e a construção de estradas do lado peruano, mas os ashaninka investem parte de suas receitas em tecnologia para monitorar suas terras.

O sucesso dos parentes do Acre despertou a curiosidade de um grupo de líderes e guerreiros caiapós, que percorreu mais de 2 mil quilômetros, desde o sul do Pará, na divisa com Mato Grosso, para um encontro inédito das duas etnias. Durante uma semana, os indígenas se reuniram para discutir e trocar experiências nas áreas de educação, medicina da floresta, proteção do território, projetos agroflorestais, manejo de sementes, beneficiamento de polpas de frutas, reflorestamento de árvores nativas e frutíferas e criação de animais .
O GLOBO acompanhou o intercâmbio desses povos, entre os dias 1º e 8 deste mês. Na primeira roda de conversa entre os ashaninkas e um grupo de 16 lideranças caiapós representando suas aldeias, atividades conjuntas tomaram corpo logo na chegada à aldeia. Conversando em português ou com a ajuda de tradutores, os caiapós participaram de expedições na floresta com os ashaninkas em que foram apresentadas área de manejos de espécies, visitas a hortas de plantas exóticas e roçados de alimentos como batata, mandioca, algodão, inhame e maxixe.
— Nossos objetivos são os mesmos: defender nosso território e preservar a biodiversidade para viver em paz e harmonia com a natureza, sem invasão — afirma o cacique Bepubunu Kayapó, da aldeia Môikàràkô.
Ainda que os caiapós tenham mantido seus territórios viáveis para suas tradições e modo de vida, a invasão pelo garimpo preocupa um das principais liderança ashaninka, Benke Piãko, que vem expandindo as áreas de terra para a produção de polpa de frutas na cooperativa agroextrativista.
— Tenho buscado trabalhar com os jovens, pois eles sofrem uma influência muito grande do mundo de fora. Muitas vezes essas ilusões de fora atrapalham a sobrevivência dos povos na comunidade. Se a gente não tiver as lideranças compactuando com a natureza e compartilhando o conhecimento com esse momento da juventude, as coisas se perdem. É através desse diálogo que a gente vai passar a ter acesso a outros conhecimentos. Às vezes um pequeno detalhe faz uma grande mudança. Um pequeno momento faz uma grande inspiração. Esse momento deles aqui é muito importante para olhar todos os problemas que estão acontecendo no entorno dos territórios — afirma Benke.

















o Globo

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